Estamos a resolver problemas ou a contribuir para algo maior?

Artigo escrito por Rita Damasceno, Gestora de Capacitação e Comunidade da Fundação Ageas, na sequência da participação no Philea Forum 2026 (Copenhaga, Dinamarca), no âmbito do programa Generation Now. 08.06.2026

Reflexões acerca do Philea Forum 2026, Copenhaga

Artigo escrito por Rita Damasceno, Gestora de Capacitação e Comunidade da Fundação Ageas, na sequência da participação no Philea Forum 2026 (Copenhaga, Dinamarca), no âmbito do programa Generation Now.

Aqui está uma pergunta simples: qual a percentagem da ajuda financeira recebida pelos países mais pobres do mundo que vem de caridade e Filantropia?

A maioria das pessoas erra. E erra de forma sistemática, segundo a Gapminder, 78% das pessoas responde incorretamente. A Filantropia ocupa muito menos espaço do que imaginamos na arquitetura do desenvolvimento global. Os governos, os mercados, o procurement público, esses são os verdadeiros motores. E se é assim, porque é que continuamos a tratar a Filantropia como se fosse a solução, em vez de a encarar como catalisador?

Foi precisamente com esta tensão que abriu o Philea Forum 2026, em Copenhaga, onde tive o privilégio de participar como jovem profissional no programa Generation Now. Delphine Moralis, CEO da Philea, deu o tom logo na sessão plenária: "If we are here today, it is not to do well on the status quo." Uma frase curta. Mas que ficou a ecoar durante os três dias seguintes.

Sistemas não se mudam com projetos

A palavra "sistémico" é das mais usadas no setor filantrópico. Em Copenhaga, houve uma tentativa séria de lhe devolver substância. O Cynefin Framework serviu de âncora para reconhecer aquilo que muitos preferem ignorar: os problemas sociais e ambientais mais urgentes não são complicados, são complexos. E a diferença não é semântica.

Um problema complicado tem solução, basta experiência e especialização suficientes. Um problema complexo, não. Requer experimentação, aprendizagem contínua e humildade epistémica. Tratar contextos complexos como se fossem complicados, com métricas rígidas, relatórios trimestrais e financiamentos de um ano, não é apenas ineficaz. É, em si mesmo, parte do problema.

Mariana Mazzucato, Professora de Economia da Inovação na University College London, foi direta: não há mudança sistémica sem capital paciente. E o capital  paciente não existe de forma espontânea nos mercados, tem de ser criada intencionalmente. O Estado pode ser investidor, mas a Filantropia tem um papel que os governos não conseguem assumir sozinhos: a Filantropia pode assumir o risco nos primeiros metros do caminho, onde a incerteza é maior e o retorno, incalculável.

Mazzucato lembrou ainda algo que tende a ser esquecido nos debates sobre impacto: 20% do orçamento dos governos é gasto em compras públicas. É nesse espaço, muitas vezes ignorado, que se decidem cadeias de valor inteiras, que se podem criar mercados para soluções sustentáveis ou perpetuar os modelos que se quer transformar. A Filantropia que ignora o procurement ignora uma das alavancas mais poderosas da mudança.

Quem sabe o quê — e quem decide

Uma das conversas mais honestas do fórum foi sobre linguagem. Joshua Amponsem, do Youth Climate Justice Fund, colocou a questão sem rodeios: porque é que aceitamos o senso comum como guia suficiente para a forma como viajamos ou gerimos as nossas vidas, mas quando se trata de Filantropia, inventamos frameworks de avaliação que poucos compreendem e menos ainda conseguem usar?

A resposta não é eliminar o rigor. É perceber que a experiência vivida de quem está no terreno, não é apenas uma fonte de informação emocional. É uma forma de conhecimento estratégico. Quem vive o problema conhece as suas texturas, os seus ritmos, as suas exceções. Excluí-lo do processo de decisão não é neutralidade, é uma escolha com consequências.

Este argumento tem implicações práticas: significa financiar intermediários capazes de trabalhar com complexidade, não apenas organizações que saibam preencher relatórios de impacto. Significa passar de uma lógica de projetos para uma lógica de organizações. E significa aceitar que os resultados mais importantes podem demorar décadas, não trimestres.

Confiança como estratégia, não como ingenuidade

A Filantropia baseada na confiança foi outro dos temas que atravessou o fórum de ponta a ponta. E divide opiniões, precisamente porque implica uma redistribuição de poder que muitos financiadores ainda não estão disponíveis a fazer.

A lógica é simples: se acreditamos genuinamente que as comunidades afetadas têm o conhecimento mais relevante sobre os seus próprios problemas, então os processos de financiamento deveriam refleti-lo. Isso significa menos condicionantes, mais autonomia, e uma relação entre financiador e financiado que se aproxima de uma parceria, em vez de uma auditoria continuada.

O risco existe. Mas vale a pena perguntar: qual é o risco de não confiar? Financiamentos excessivamente controlados geram organizações que aprendem a gerir expectativas em vez de aprender com a realidade. Criam sistemas de reporte que consomem recursos que deveriam ir para o terreno. E, no limite, financiam a aparência de mudança, não a mudança.

A sessão sobre mudança sistémica mostrou que há um caminho do meio: medir comportamentos ao longo de todo o sistema, criar ciclos de aprendizagem participativa, e distinguir contribuição de atribuição. A pergunta não é "fomos nós que causámos esta mudança?", essa é frequentemente impossível de responder. A pergunta é: "estamos a contribuir para as condições que tornam a mudança possível?"

O que muda quando mudamos de lente

Há uma frase que ouvi numa das sessões e que resume bem o espírito do fórum: "Os sistemas são organismos vivos, estão sempre a mudar." Se queremos influenciar um sistema em dez anos, temos de contar com a sua evolução natural. Não podemos congelar o alvo.

Isso exige organizações que aprendam em tempo real, que estejam dispostas a mudar de estratégia sem isso ser interpretado como falha, e que reconheçam que a resistência à mudança não é um sinal de que estamos a errar. É frequentemente o sinal de que estamos a acertar.

A Filantropia europeia parece estar num momento de transição. Entre o herança judaico-cristã de dar aos mais pobres e a ambição de transformar os sistemas que produzem pobreza. Entre o financiamento de projetos e o investimento em movimentos. Entre a gestão do risco e a aceitação de que, neste trabalho, o maior risco é não arriscar nada de novo.

Em Copenhaga, ficou claro que as perguntas certas já existem. O que falta, muitas vezes, é a coragem de deixar que elas mudem as respostas.

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