Reflexões acerca do Philea Forum 2026, Copenhaga
Artigo escrito por Rita Damasceno, Gestora de Capacitação e Comunidade da Fundação Ageas, na sequência da participação no Philea Forum 2026 (Copenhaga, Dinamarca), no âmbito do programa Generation Now.
Aqui está uma pergunta simples: qual a percentagem da ajuda financeira recebida pelos países mais pobres do mundo que vem de caridade e Filantropia?
A maioria das pessoas erra. E erra de forma sistemática, segundo a Gapminder, 78% das pessoas responde incorretamente. A Filantropia ocupa muito menos espaço do que imaginamos na arquitetura do desenvolvimento global. Os governos, os mercados, o procurement público, esses são os verdadeiros motores. E se é assim, porque é que continuamos a tratar a Filantropia como se fosse a solução, em vez de a encarar como catalisador?
Foi precisamente com esta tensão que abriu o Philea Forum 2026, em Copenhaga, onde tive o privilégio de participar como jovem profissional no programa Generation Now. Delphine Moralis, CEO da Philea, deu o tom logo na sessão plenária: "If we are here today, it is not to do well on the status quo." Uma frase curta. Mas que ficou a ecoar durante os três dias seguintes.
Sistemas não se mudam com projetos
A palavra "sistémico" é das mais usadas no setor filantrópico. Em Copenhaga, houve uma tentativa séria de lhe devolver substância. O Cynefin Framework serviu de âncora para reconhecer aquilo que muitos preferem ignorar: os problemas sociais e ambientais mais urgentes não são complicados, são complexos. E a diferença não é semântica.
Um problema complicado tem solução, basta experiência e especialização suficientes. Um problema complexo, não. Requer experimentação, aprendizagem contínua e humildade epistémica. Tratar contextos complexos como se fossem complicados, com métricas rígidas, relatórios trimestrais e financiamentos de um ano, não é apenas ineficaz. É, em si mesmo, parte do problema.
Mariana Mazzucato, Professora de Economia da Inovação na University College London, foi direta: não há mudança sistémica sem capital paciente. E o capital paciente não existe de forma espontânea nos mercados, tem de ser criada intencionalmente. O Estado pode ser investidor, mas a Filantropia tem um papel que os governos não conseguem assumir sozinhos: a Filantropia pode assumir o risco nos primeiros metros do caminho, onde a incerteza é maior e o retorno, incalculável.
Mazzucato lembrou ainda algo que tende a ser esquecido nos debates sobre impacto: 20% do orçamento dos governos é gasto em compras públicas. É nesse espaço, muitas vezes ignorado, que se decidem cadeias de valor inteiras, que se podem criar mercados para soluções sustentáveis ou perpetuar os modelos que se quer transformar. A Filantropia que ignora o procurement ignora uma das alavancas mais poderosas da mudança.
Quem sabe o quê — e quem decide
Uma das conversas mais honestas do fórum foi sobre linguagem. Joshua Amponsem, do Youth Climate Justice Fund, colocou a questão sem rodeios: porque é que aceitamos o senso comum como guia suficiente para a forma como viajamos ou gerimos as nossas vidas, mas quando se trata de Filantropia, inventamos frameworks de avaliação que poucos compreendem e menos ainda conseguem usar?
A resposta não é eliminar o rigor. É perceber que a experiência vivida de quem está no terreno, não é apenas uma fonte de informação emocional. É uma forma de conhecimento estratégico. Quem vive o problema conhece as suas texturas, os seus ritmos, as suas exceções. Excluí-lo do processo de decisão não é neutralidade, é uma escolha com consequências.
Este argumento tem implicações práticas: significa financiar intermediários capazes de trabalhar com complexidade, não apenas organizações que saibam preencher relatórios de impacto. Significa passar de uma lógica de projetos para uma lógica de organizações. E significa aceitar que os resultados mais importantes podem demorar décadas, não trimestres.
Confiança como estratégia, não como ingenuidade
A Filantropia baseada na confiança foi outro dos temas que atravessou o fórum de ponta a ponta. E divide opiniões, precisamente porque implica uma redistribuição de poder que muitos financiadores ainda não estão disponíveis a fazer.
A lógica é simples: se acreditamos genuinamente que as comunidades afetadas têm o conhecimento mais relevante sobre os seus próprios problemas, então os processos de financiamento deveriam refleti-lo. Isso significa menos condicionantes, mais autonomia, e uma relação entre financiador e financiado que se aproxima de uma parceria, em vez de uma auditoria continuada.
O risco existe. Mas vale a pena perguntar: qual é o risco de não confiar? Financiamentos excessivamente controlados geram organizações que aprendem a gerir expectativas em vez de aprender com a realidade. Criam sistemas de reporte que consomem recursos que deveriam ir para o terreno. E, no limite, financiam a aparência de mudança, não a mudança.
A sessão sobre mudança sistémica mostrou que há um caminho do meio: medir comportamentos ao longo de todo o sistema, criar ciclos de aprendizagem participativa, e distinguir contribuição de atribuição. A pergunta não é "fomos nós que causámos esta mudança?", essa é frequentemente impossível de responder. A pergunta é: "estamos a contribuir para as condições que tornam a mudança possível?"
O que muda quando mudamos de lente
Há uma frase que ouvi numa das sessões e que resume bem o espírito do fórum: "Os sistemas são organismos vivos, estão sempre a mudar." Se queremos influenciar um sistema em dez anos, temos de contar com a sua evolução natural. Não podemos congelar o alvo.
Isso exige organizações que aprendam em tempo real, que estejam dispostas a mudar de estratégia sem isso ser interpretado como falha, e que reconheçam que a resistência à mudança não é um sinal de que estamos a errar. É frequentemente o sinal de que estamos a acertar.
A Filantropia europeia parece estar num momento de transição. Entre o herança judaico-cristã de dar aos mais pobres e a ambição de transformar os sistemas que produzem pobreza. Entre o financiamento de projetos e o investimento em movimentos. Entre a gestão do risco e a aceitação de que, neste trabalho, o maior risco é não arriscar nada de novo.
Em Copenhaga, ficou claro que as perguntas certas já existem. O que falta, muitas vezes, é a coragem de deixar que elas mudem as respostas.